Marcos Luna fala sobre distúrbios de saúde

Médico pós-graduado em transplante de órgãos na Harvard University, EUA, Marcos Luna, 56 anos, explica quais as principais doenças que podem atingir as trabalhadoras e trabalhadores domésticos. “Dentre as doenças mais prevalentes estão a hipertensão, obesidade, artroses, diabetes e infecções urinárias”, enumera o médico. Luna é também  ex- conselheiro do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) e do Conselho Municipal de  Saúde de Salvador. Atualmente, atua como médico e preceptor de clinica médica do complexo Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), mais conhecido como Hospital das Clínicas da Ufba.

Fenatrad: Quais os principais problemas de saúde que atingem as trabalhadoras e trabalhadores domésticos?
Marcos Luna:
Dentre as doenças mais prevalentes estão a hipertensão, obesidade, artroses, diabetes, infecções urinarias, distimias emocionais ( angústias e ansiedades), gastrites, parasitoses intestinais, tabagismo (fumo) e etilismo (alcoolismo). Estas patologias podem variar em relação à idade e tendências familiares.

F: A categoria é formada, principalmente, por mulheres e homens negros. É verdade que esse grupo étnico está mais propenso a doenças cardiovasculares como hipertensão, infarto e problemas renais? Por  que?
M.L:
Sim. Os estudos clínicos epidemiológicos, as evidências terapêuticas, baseadas em observações controladas, apontam para a maior suscetibilidade clinica, assim como uma genética mais expressiva para a hipertensão de maior severidade e evolução mais rápida para a  insuficiência renal. Existe o consenso de que o rim da pessoa negra tem menor resistência à hipertensão e a diabets. A cardiopatia isquêmica tem alta significância pela evolução de difícil controle e pela não adesão regular ao tratamento médico.

F: A obesidade é hoje um problema  que atinge a população brasileira de forma significativa. O que fazer para evitá-la?
M.L:
A obesidade aumenta também nesta população por conta das dietas inadequadas face a alta ingestão de açucares e gorduras, associada a refeições irregulares durante o dia e a inexistência de  atividades como prática de esportes ou exercícios aeróbicos.O “etilismo (alcoolismo) social” também tem sofrido incremento.

F: Os médicos falam em se manter hábitos saudáveis como boa alimentação e fazer exercícios físicos. Mas estes cuidados custam caro, principalmente para quem ganha um salário mínimo. Que tipo de cuidados é possível adotar nesse sentido sem mexer muito no orçamento?
M.L:
A equação deste problema passa pela regulamentação trabalhista na  distribuição da carga horária de trabalho. É importante reservar uma hora do dia para se exercitar durante 50 minutos: caminhadas e leves exercícios de musculação e alongamento. Pode ser antes ou depois da jornada de trabalho. Tanto faz, desde que conciliável com o trabalho e ao menos três vezes na semana.

F: Quais são os exames que mulheres e homens não podem deixar de fazer anualmente?
M.L:
A consulta com o clínico geral que pedirá exames de sangue, urina  e fezes, ECG e Raio X de tórax ou ultrassonografia do abdômen. A ginecologia se impõe desde cedo para prevenção de gravidez, DSTs e câncer de colo do útero e mama. Para os homens é importante consultar-se com um urologista a partir dos 40 anos para o controle da próstata, DSTs e disfunção erétil.

F: As DORTs incomodam muito, mas só costumam dar sinais visíveis quando estão em um estado muito avançado. Quais os sintomas que já indicam que se deve procurar um médico?
M.L:
As DORTs devem ser prevenidas em todas as ocupações que usam por longo tempo, na jornada de trabalho, uma postura articular ou órgão de sentido. O cansaço físico – dores localizadas ou gerais, inchaços ou vermelhidão em membros, zumbidos e tonturas, turvação visual, cefaléia, azia, infecção urinária, dor no estômago, flatulência e  obstipação intestinal – e a insônia devem ser considerados como instalação de condição patológica.

F: O Sr. conhece programas disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) que atendem essas doenças que mais atingem a categoria? Quais?
M.L:
O Ministério do Trabalho tem serviços médicos credenciados. O complexo Hupes-Ufba ( Hospital das Clínicas) tem atendimento ao público geral nele cadastrado para todas as especialidades pertinentes às condições referidas.

F: As mulheres costumam ter periodicamente infecções urinárias. Quais os principais riscos que elas trazem para o rins?
M.L:
A infecção urinária é uma condição clínica que faz parte da vida da  mulher, ativa sexual ou não, pelo menos algumas vezes na vida na medida que envelhece. A avaliação ginecológica regular previne a doença, assim como a hidratação e a não retenção da bexiga cheia; o uso da reposição hormonal quando indicada; o cuidado com banhos de piscina pública e atenção ao asseio. Deve ser tratada adequadamente para que os rins não sejam atingidos evoluindo para uma septicemia (infecção generalizada) ou internação hospitalar.

F: Como fazer para evitar  problemas renais e quais os seus principais impactos?
M.L
: Doença renal se previne evitando ou controlando a hipertensão, a diabetes, os cálculos renais e as infecções urinárias. É importante também a avaliação clínica regular para diagnosticar nefrites primárias e cistos renais em progressão; adequar a dieta com as recomendações em relação às proteínas, sal, hidratação e uso de analgésicos e antibióticos com orientação médica, sempre que possível. Sem esses cuidados aumenta o risco de insuficiência renal crônica e tratamento com hemodiálise e transplante.

F: Quais os riscos da automedicação?
M.L:
A automedicação é uma das principais causas de insuficiência renal aguda e crônica, além de retardar o tratamento adequado de inúmeras disfunções orgânicas e doenças. Ela se deve ao acesso mais fácil à farmácia do que a consulta clínica ou hospitalar. Deve ser sempre destacado seu perigo.